quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A massagem

Começou de manhã, quando saímos pra comprar um micro-ondas novo. Na loja de eletrodomésticos, sentei em uma daquelas cadeiras de massagem e tava quase vendo estrelinhas... Daí de tarde fiz o convite/intimação pra Jea: vamos na massagem hoje de noite?

Antigamente não tinha o menor saco pra massagem, mas veja só, o tempo passa e as pessoas mudam um pouco, sim. Foot massage, por exemplo, é tão bom que pode até se tornar motivo suficiente pra querer continuar morando aqui (ou na Ásia de modo geral, pois imagino que em outros países vizinhos não seja muito diferente). 

Ainda assim, faço massagem muito raramente, de corpo inteiro, se não me engano, a última vez foi há um ano, em Shanghai. Tinha ido pra lá "visitar" a Expo e passava praticamente o dia inteiro em pé, nas filas para entrar nos pavilhões de cada país. Depois de umas 10 horas andando a passo de tartaruga naquelas filas, sendo que fazia um calor de 30 e poucos graus, quando a noite chegava estava completamente acabada, então me rendi a algumas sessões de massagem. 

Voltando pra hoje, algumas horas atrás, antes de começar a massagem, a Jea me disse "se a guria começar a te machucar avisa ela pra pegar mais leve". Eu, sempre muito VALENTONA, respondi "mas eu gosto quando dói, sinal de que tá fazendo efeito, é uma DOR BOA".

Deitada de barriga pra cima, a primeira coisa que a mocinha tocou foi meu pescoço e ali começou as 2 horas de dor semi-excruciante. A massagista percebeu imediatamente o DESCONFORTO e perguntou "tá doendo? tu usa muito computador?", e eu, chorando por dentro, respondi "sim, o dia inteiro, todos os dias". E fez questão de apontar a diferença "massagem de medicina chinesa é mais forte, dói, estrangeiros estão acostumados com massagem 'levinha'". Ok.

Todas as partes do meu corpo que ela tocou doeram. Doeram INSUPORTAVELMENTE, MUITO, DEMAIS e um pouco menos, mas não houve nenhum pedacinho que passou incólume da sensação de dor. Atrás da orelha? Doeu. Cada milímetro quadrado do pescoço e ombros? Doeu tanto que é difícil explicar com precisão. Costas? Muita dor. Pernas? Doeram. Braços? Dor, doeu até o COTOVELO. Mãos? Ali entre o indicador e o dedão sempre dói muito. BUNDA? Sim, também doeu. 

Foram duas horas em que eu gritava silenciosamente "PARA, POR FAVOR", às vezes eu ria (sou dessas que tem tendência a rir em momentos inapropriados), e em um único dado momento não foi possível resistir e precisei segurar a mãozinha da moça -- não dava mais.

Pessoas com baixa resistência à dor devem evitar a todo custo esse tipo de massagem à moda da medicina tradicional chinesa, enquanto aventureiros e curiosos devem dar uma chance e masoquistas devem se entregar sem dó.

Um pouco massagem, um pouco tortura, um pouco terapia e um pouco experiência religiosa. Muitas vezes me perguntei "que ideia foi essa, Érica?". Também me consolei "depois vai melhorar, é pro teu bem", assim como me culpei "por que tu passa tantas horas no computador em posições completamente erradas?". Por fim, até procurei Deus, mas não encontrei, havia apenas a massagista explorando novos movimentos com seus dedinhos, supostamente tentando desfazer "nózinhos", mas certamente regojizando ao me ver sofrer.

Findas as duas intensas horas, eu, que havia chegado ao lugar sem dor alguma, estava (estou) com o pescoço e ombros doloridos, como há muito não ficavam. Pagamos, anotamos o número das massagistas (massagistas aqui sempre tem um número, assim quando o cliente voltar pode pedir para ser atendido novamente pela número X. a número 908 foi meu carrasco de hoje) e falamos em talvez voltar lá amanhã. 

Hoje foi excepcionalmente doloroso (caso não tivesse ficado claro alguns parágrafos atrás), mas certamente é porque eu ando especialmente tensa.

Eu sei que querer se sujeitar a uma nova sessão não parece fazer sentido. Em parte existe a esperança que da próxima vez não vai ser tão ruim, e em parte realmente se trata de um SOFRIMENTO BOM. 

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