sexta-feira, 28 de agosto de 2009

divagações - em tantos sentidos - ou uma rápida revisão da minha vida na China (?)

Generalizar e tentar enquadrar as coisas em alguns poucos grupos é um recurso sempre perigoso e com frequencia pouco preciso - todo mundo sabe disso. Talvez eu precise dessa adrenalina, porque aqui vou eu correr esse risco novamente.


Dá pra dividir os estrangeiros que vivem na china em uns dois grupos: os que ganham bem e os que vivem sob um orçamento apertado. Antes eu tinha pensado em dizer que os grupos eram os estudantes e os profissionais, mas agora já conheço laowais* mal remunerados aqui.

Durante um ano e meio eu experimentei uma vida dupla, contando os kuais** durante a semana, quando ficava no dormitório da universidade, e levando uma vida glamourosa (sdhudfsi) aos finais de semana, sob as asas da minha tia que ganha - e bem - em dólares e gasta em yuans (moeda chinesa).

É claro que, mesmo durante a semana, quando uma extravagância consistia em almoçar ou jantar um prato de 30(R$8) eu vivia melhor do que a maioria dos chineses, mas assumindo o papel de pobre menina rica e somando à conta as condições do dormitório, os arredores da universidade e os ônibus lotados que peguei por aqui, me sentia no direito de reclamar e amaldiçoar qualquer mosquito, aranha e barata que entrasse no quarto. E assim eu fiz. Não é uma vida completamente miserável, mas é mais modesta e próxima do povão.

Enquanto isso o pessoal que vem pra cá e ganha em dólar vive uma fantasia na China, come apenas em restaurantes de/para estrangeiros: comida italiana, tailandesa, vietnamita, indiana, japonesa, etc. Só andam de táxi ou quando muito metrô - sempre mais limpinho e civilizado - e compram apenas roupas de grandes grifes, sejam as peças fakes ou originais. Comer em um restaurante chinês ou ir nos chamados "becos" de precinhos camaradas são programas extraordinários, encarados como uma aventura e evitados a todo custo. Para estas pessoas a mudança pra China significa uma escalada social, são catapultados da classe média para classe alta e começam a falar besteiras como "no Brasil não se compra calça jeans por menos de 200 reais, então não é nenhum absurdo comprar essa aqui na Armani Exchange". Olha, nunca paguei nem 100 nas minhas e quando chegava muito perto dos 60 já começava a repensar a compra.

Então ano passado, depois 1 ano de dormitório, de continuar remando no mandarim, fracassar muito no HSK, esperar MESES uma caixa com encomendas e presentinhos do Brasil (que não chegou) e o acúmulo de 23 anos de instabilidade emocional, teve um dia que eu sentei no meio do campus e chorei. Quis voltar correndo pra baixo das saias da mãe, com saudades de quando o problema era o medo de sair de noite e ser assaltada ou outras bobagens do tipo hehe. Dias depois embarquei e fui passar quase um mês no Brasil. Lá, fracassei em uma dinâmica de grupo que selecionava trainees para uma empresa, reaprendi a relaxar e não ter que treinar tudo que eu ia falar antes de entrar numa loja e passei um dia inteiro com cara de bunda, me sentindo pouco integrada à família.

Voltei pra cá, aulas de novo, tédio crescente, dormitório cada vez pior e comecei a planejar a próxima mudança, pareceu um bom estímulo pra encarar o tempo de China que ainda tinha (tenho) pela frente. Me deprimi menos que nos semestres anteriores.

E vieram essas férias de verão. Foram ótimas, flutuando no mundo encantado dos estrangeiros com grana, achando que a vida é bela e tudo sempre dá certo e etc, etc, etc. Até me deu vontade de ser voluntária da Expo Shanghai do ano que vem, o que postergaria a minha estada em alguns quantos meses.

É um choque de realidades e, quando passei pela rodoviária ontem para pegar o ônibus e me matricular para o que deve ser meu último semestre de estudos na China, o cheiro do banheiro invadiu minhas narinas e me repugnou como se fosse a primeira vez. Teve o tiozinho limpando o ouvindo com o mindinho e passando no banco que talvez um dia eu venha a sentar e aquele mar de pessoas humildes carregando seus baldinhos de mudança pra lá e pra cá. Teve gente furando a fila do táxi ostentando um ar vitorioso e teve a primeira complicação com o meu visto. 

Nos próximos meses vou pertencer aos dois grupos quase simultaneamente, me transformarei tipo num híbrido. Serei a estudante de kuais** contados durante a manhã e um pedaço da tarde e durante o resto do dia desfrutarei de um oásis estrangeiro ao voltar pra casa da minha tia. A distinção vai ficar mais clara: em Guangzhou eu estudo e em Dongguan eu moro. Não sei bem como isso vai me afetar, tomei a decisão de largar o dormitório achando que era a melhor opção para a minha sanidade mental - a maioria dos estudantes sai correndo depois de uns 2 meses. 

Por ora ainda aposto que no início do ano que vem darei zàijiàn*** ao império do meio, provavelmente carregando os mesmo sentimentos antagônicos que tenho hoje em relação ao país, mais confusa e sem rumo do que quando cheguei e falando um mandarim chinelão. 

Pra variar na metade do texto esqueci qual era meu objetivo com esse post, se é que havia um.  


* estrangeiros
** em minha tradução livre: "pilas"
*** tchau





terça-feira, 11 de agosto de 2009

China arretada?

Nossa empregada doméstica no Brasil é uma baiana em quem confiamos plenamente e quando viajamos deixamos a casa, a gata e a cachorra aos seus cuidados. Saímos tranquilos e sabemos que ao voltar vai estar tudo no lugar, possivelmente mais arrumado do que deixamos. Além de ser uma santa criatura, a Ana Maria também possui outras características interessantes, como, por exemplo, o fato de ela parecer ter engolido um gravador. Conversar é tipo o esporte favorito da moça e falando muito rápido ela emenda o fim com o começo da história algumas vezes seguidas, sem nem dar tempo de alguém fazer um comentário. Apesar de repetir a história umas 3 vezes, quando entendemos metade do que ela falou é uma vitória. Depois de 4 anos juntos ou a gente pegou o jeito ou ela deu uma desacelerada, só sei que nos entendemos melhor.


Morar na China às vezes faz eu me sentir como se estivesse cercada por um mar de Anas: a maioria é muito boa e honesta, fala rápido demais e repete a mesma coisa 300 vezes.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fora de cogitação

No meu primeiro semestre de estudos aqui na China entrei na turma A, a mais básica, e além de mim haviam outros 3 brasileiros na turma: a Marina, filha de coreanos que tinha vindo pra cá tocar um negócio com a mãe, o Richard, descendente de japoneses que veio fazer algo relacionado aos negócios da família que nunca entendi o que era e o Daniel, filho de chineses que já falava o cantonês e que viera especialmente para estudar mandarim, idioma que os pais não falam (e se não me engano liam e escreviam muito pouco também). Todos paulistas, Marina e Richard da capital e Daniel de Guarujá. Se um chinês com pouco ou nenhum conhecimento sobre o Brasil - a grande maioria - nos visse e soubesse que éramos todos brasileiros, certamente acharia que do outro lado do mundo também havia um povo de olhos puxados e pele amarelada, muito parecido com o seu, o que aliás não é completamente falso, considerando que os nativos brasileiros, os índios, possuem bastante semelhanças físicas com os chineses.


No meio do semestre a Marina e o Richard largaram o curso de mão, ela porque estava muito ocupada com os negócios e ele porque demonstrou uma falta de aptidão para o aprendizado de línguas que superou qualquer outra pessoa que eu já tenha conhecido, se bem que ele nem sequer conseguia manter 5 min de atenção na aula e pela personalidade imbecil e insuportável que demonstraria no decorrer dos meses dava pra perceber que o problema era mais generalizado.

O Daniel e o Richard viraram melhores amigos e depois de alguns meses passaram a dividir um apartamento junto com duas chinesas que conheceram e de quem ficaram bastante próximos (entre esses 4 rolou TANTA confusão que não vale nem a pena). Depois de algumas conversas no intervalo das aulas eu já tinha percebido que o Richard era muito chato e mongolão, mas sair pra almoçar ou jantar com o Daniel - a Marina estava sempre ocupada - geralmente significava que ele também estaria presente, era meio que o preço a se pagar para um tentativa de sair da rotina deprimente em que não havia absolutamente nada pra fazer depois da aula, lembrando que eu ainda não tinha meu note na época.

O segundo semestre de aulas o Daniel acabou largando pela metade, pois tinha adquirido uma fluência em mandarim numa velocidade impressionante, combinando a gramática idêntica e algumas palavras de som igual ou parecido do cantonês que ele falava desde pequeno e a convivência diária dentro de casa com duas chinesas. As aulas para ele conseguiram ficar ainda mais maçantes do que pro resto da turma que se matava pra conseguir o mínimo progresso. 

No final de 2008 tanto o Daniel quanto o Richard jogaram a toalha e voltaram pro Brasil (perceberam que isso aqui não é pra qualquer um, né) e a essas alturas nenhum de nós tinha notícias da Marina.

Fast forward para 31 de julho de 2009, 22:09.

Estou eu bem no meio das minhas férias de verão, deitada no sofá da sala vendo TV, quando toca meu celular e não reconheço o número. Atendo e é o Richard, de volta ao país para passar pouco mais de um mês fazendo algo relacionado aos negócios da família que eu continuo não entendendo o que é. Cada minuto de conversa com ele parece um pesadelo interminável, o papo segue sendo exatamente o mesmo que eu tantas vezes já havia xingado, na frente dele, claro, durante todo o ano passado. Queria combinar de me encontrar, disse que mesmo estando aqui de novo há apenas uma semana já tinha ficado pensando como é que eu aguentava, etc. Falei que aham, a gente se falava, qualquer dia eu aparecia em Guangzhou e almoçávamos juntos. 

Foi aqui na China que eu encontrei as pessoas mais chatas que já passaram pela minha vida nesses 23, quase 24, anos - uns 98% deles eram brasileiros(as), 1% argentino e 1% chinês. E essa criatura em especial é tão retardada e insuportável que todas as vezes que eu via ele não conseguia me controlar e deixava claro que ele falava sempre as mesmas coisas e que, sim, muitas delas eram completamente idiotas. A coisa é tão grave que eu cheguei a cogitar - e até comentei isso com o Daniel - que ele talvez tivesse mesmo algum problema mental, era simplesmente ruim demais pra ser verdade. Uma noite no segundo semestre de 2008, por coincidência, fui jantar no mesmo lugar onde estavam o Richard e seus pais, que visitavam o filho na China. Acabamos sentando juntos e fiquei surpresa ao descobrir que os pais dele eram pessoas absolutamente normais e agradáveis.

Depois de tudo isso posso finalmente chegar à moral do post de hoje, então vamos lá. Assim que eu desliguei o telefone sexta-feira, anotei o novo número do Richard no meu  celular e pretendo não atender o telefone se ele me ligar de novo. Não nasci pra mártir, gente.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Na ponta da língua - ou quase

Eu realmente não tenho vontade de ficar na China por muito mais tempo, a não ser que rolasse um grande emprego ou um grande homem, mas né gente, sou realista e isso não vai acontecer. No entanto, depois de 1 ano e meio aqui devo admitir que agora é que eu começo a me sentir mais a vontade, circulo com mais facilidade e independência e o meu ainda parco mandarim tem bastante a ver com isso.


Nos últimos dias coloquei meus estudos mais em prática do que nunca e comprei ingressos pra um show em Shanghai que devem ser entregues aqui em casa ainda esta semana - caso não cheguem descobrirei que, afinal, não houve comunicação. Também tive discussões com motoristas e por culpa de taxistas que insistem em não usar óculos e jamais conseguem ler os endereços nas revistas tive até que praticar a arte da escrita chinesa. Sorte que eu ainda estava sóbria. Mas vejam só, por conta de umas tequilas a mais perdi meu óculos e depois tive que usar meu mandarim para reavê-lo, quer dizer, ultimamente tudo tem conspirado a favor, sabem?

Enfim, qualquer hora dessas rola um quiprocó qualquer que forçará uma nova onda de desânimo e desespero. Talvez sejam até os tais ingressos que não vão chegar. Confesso que estou tensa, afinal são 400 reais já pagos. Oremos.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

慢慢就习惯了

Chinês gosta de colchão duro - ou então ainda não tiveram muito contato com outros tipos e não deu tempo de se apegar a deitar no macio. Às vezes sinto os ossos contra a cama e incomoda um pouco, mas o corpo se acostuma e, dizem, faz bem pra coluna. Vale lembrar que já fiquei em hotel 5 estrelas em Hong Kong e nem isso deu direito a maciez.

Nos supermercados e em lojas de roupa de cama vendem-se muito umas esteiras de palha, no estilo daquelas que todo mundo levava pra praia nos anos 90. Até onde sei um dos motivos é que mantém a cama mais fresca, mas me parece que também ajuda a deixar a cama mais firme, já que em lugares mais humildes não rola um colchão "de verdade" e sim tipo uns colchonetes bem finos.

Como vocês já sabem, pois vivo reclamando disso, mosquitos são um grande problema na China, embora eu não sabia o porque - também nunca me dei ao trabalho de pesquisar. Com isso, é bastante comum o uso de mosquiteiros, geralmente presos ao teto, cobrindo a cama. Aqui em casa não temos, mas cheguei a usar umas duas vezes no dormitório, quando o bicho estava, literalmente, pegando. No começo rola uma leve sensação de sufocamento e claustrofobia - tudo psicológico, obviamente -, mas é mesmo super eficaz. De novo, tudo questão de hábito.

O tempo sempre foi a solução para vários problemas e para um estudante de mandarim na China não é diferente. "Devagarinho se acostuma" diz o título deste post e do terceiro capítulo do meu livro de speaking, que tenta encorajar os estrangeiros a dar tempo ao tempo e não se entregar ao desespero.


Amém.