Generalizar e tentar enquadrar as coisas em alguns poucos grupos é um recurso sempre perigoso e com frequencia pouco preciso - todo mundo sabe disso. Talvez eu precise dessa adrenalina, porque aqui vou eu correr esse risco novamente.
Dá pra dividir os estrangeiros que vivem na china em uns dois grupos: os que ganham bem e os que vivem sob um orçamento apertado. Antes eu tinha pensado em dizer que os grupos eram os estudantes e os profissionais, mas agora já conheço laowais* mal remunerados aqui.
Durante um ano e meio eu experimentei uma vida dupla, contando os kuais** durante a semana, quando ficava no dormitório da universidade, e levando uma vida glamourosa (sdhudfsi) aos finais de semana, sob as asas da minha tia que ganha - e bem - em dólares e gasta em yuans (moeda chinesa).
É claro que, mesmo durante a semana, quando uma extravagância consistia em almoçar ou jantar um prato de 30元(R$8) eu vivia melhor do que a maioria dos chineses, mas assumindo o papel de pobre menina rica e somando à conta as condições do dormitório, os arredores da universidade e os ônibus lotados que peguei por aqui, me sentia no direito de reclamar e amaldiçoar qualquer mosquito, aranha e barata que entrasse no quarto. E assim eu fiz. Não é uma vida completamente miserável, mas é mais modesta e próxima do povão.
Enquanto isso o pessoal que vem pra cá e ganha em dólar vive uma fantasia na China, come apenas em restaurantes de/para estrangeiros: comida italiana, tailandesa, vietnamita, indiana, japonesa, etc. Só andam de táxi ou quando muito metrô - sempre mais limpinho e civilizado - e compram apenas roupas de grandes grifes, sejam as peças fakes ou originais. Comer em um restaurante chinês ou ir nos chamados "becos" de precinhos camaradas são programas extraordinários, encarados como uma aventura e evitados a todo custo. Para estas pessoas a mudança pra China significa uma escalada social, são catapultados da classe média para classe alta e começam a falar besteiras como "no Brasil não se compra calça jeans por menos de 200 reais, então não é nenhum absurdo comprar essa aqui na Armani Exchange". Olha, nunca paguei nem 100 nas minhas e quando chegava muito perto dos 60 já começava a repensar a compra.
Então ano passado, depois 1 ano de dormitório, de continuar remando no mandarim, fracassar muito no HSK, esperar MESES uma caixa com encomendas e presentinhos do Brasil (que não chegou) e o acúmulo de 23 anos de instabilidade emocional, teve um dia que eu sentei no meio do campus e chorei. Quis voltar correndo pra baixo das saias da mãe, com saudades de quando o problema era o medo de sair de noite e ser assaltada ou outras bobagens do tipo hehe. Dias depois embarquei e fui passar quase um mês no Brasil. Lá, fracassei em uma dinâmica de grupo que selecionava trainees para uma empresa, reaprendi a relaxar e não ter que treinar tudo que eu ia falar antes de entrar numa loja e passei um dia inteiro com cara de bunda, me sentindo pouco integrada à família.
Voltei pra cá, aulas de novo, tédio crescente, dormitório cada vez pior e comecei a planejar a próxima mudança, pareceu um bom estímulo pra encarar o tempo de China que ainda tinha (tenho) pela frente. Me deprimi menos que nos semestres anteriores.
E vieram essas férias de verão. Foram ótimas, flutuando no mundo encantado dos estrangeiros com grana, achando que a vida é bela e tudo sempre dá certo e etc, etc, etc. Até me deu vontade de ser voluntária da Expo Shanghai do ano que vem, o que postergaria a minha estada em alguns quantos meses.
É um choque de realidades e, quando passei pela rodoviária ontem para pegar o ônibus e me matricular para o que deve ser meu último semestre de estudos na China, o cheiro do banheiro invadiu minhas narinas e me repugnou como se fosse a primeira vez. Teve o tiozinho limpando o ouvindo com o mindinho e passando no banco que talvez um dia eu venha a sentar e aquele mar de pessoas humildes carregando seus baldinhos de mudança pra lá e pra cá. Teve gente furando a fila do táxi ostentando um ar vitorioso e teve a primeira complicação com o meu visto.
Nos próximos meses vou pertencer aos dois grupos quase simultaneamente, me transformarei tipo num híbrido. Serei a estudante de kuais** contados durante a manhã e um pedaço da tarde e durante o resto do dia desfrutarei de um oásis estrangeiro ao voltar pra casa da minha tia. A distinção vai ficar mais clara: em Guangzhou eu estudo e em Dongguan eu moro. Não sei bem como isso vai me afetar, tomei a decisão de largar o dormitório achando que era a melhor opção para a minha sanidade mental - a maioria dos estudantes sai correndo depois de uns 2 meses.
Por ora ainda aposto que no início do ano que vem darei zàijiàn*** ao império do meio, provavelmente carregando os mesmo sentimentos antagônicos que tenho hoje em relação ao país, mais confusa e sem rumo do que quando cheguei e falando um mandarim chinelão.
Pra variar na metade do texto esqueci qual era meu objetivo com esse post, se é que havia um.
* estrangeiros
** em minha tradução livre: "pilas"
*** tchau